

Entre o Papel e a Pele – Benedicta
Entre o Papel e a Pele – Benedicta, 2025
Desenho a partir da Ablação do Papel Carbono
28 x 22 cm
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Descrição
Entre o Papel e a Pele – Benedicta, 2025
Desenho a partir da Ablação do Papel Carbono
28 x 22 cm
Acessibilidade
Texto Descritivo da Obra
O desenho em preto e branco, tamanho 28 x 22 cm, feito pela técnica de ablação do papel carbono que resulta em uma textura granulada, é um retrato frontal de meio-corpo de uma mulher negra com feições maduras, identificada como Benedicta.
A figura está centrada na composição. Ela usa um turbante na cabeça, que amarra o cabelo. O rosto é esculpido dramaticamente pela luz, que emerge da escuridão do fundo, ressaltando os picos das sobrancelhas, as bochechas e os contornos da boca. Seus olhos estão fixos no observador, com uma expressão de seriedade, sofrimento contido e intensa dignidade. Ela veste uma roupa simples. O contraste marcante entre as áreas iluminadas (criadas pela remoção do pigmento) e as áreas escuras confere profundidade psicológica e uma presença quase palpável ao retrato.
Conceito
“Reparação” (Díptico) propõe uma experiência sensorial e simbólica sobre memória, responsabilidade e consciência coletiva. Composto por duas peças interdependentes – Palmares e Ubuntu – o trabalho convida o espectador a participar ativamente de um processo de reconhecimento, revelação e compromisso ético diante da história e das feridas ainda abertas do racismo estrutural.
“Palmares” é uma obra de arte-objeto que transcende a contemplação passiva, transformando o observador em cúmplice e agente da memória. A peça, uma caixa de MDF pintada com spray grafite, é um repositório intencional de uma história que a sociedade, ativamente e muitas vezes de forma descarada, tentou silenciar.
O ato de manusear a caixa é o primeiro passo da experiência. O grafite – metáfora da poeira da história de escravidão e preconceito – adere inevitavelmente às mãos de quem a toca. Esse vestígio materializa as cicatrizes de um legado histórico que, mesmo invisível para alguns, permanece grudado à pele de todos, marcando a persistência da opressão.
Dentro da caixa, à espera do observador, estão vários retratos feitos em papel carbono — imagens ainda invisíveis aos olhos. A invisibilidade do retrato (até que a luz o toque) ecoa a invisibilidade da pessoa preta em uma sociedade que, majoritária e insistentemente, a rejeita.
A verdade só emerge por um ato de busca ativa: o observador deve posicionar o papel contra a luz. Somente então a imagem é revelada, restituindo sua dignidade, sua identidade e sua história. A luz aqui é o feixe de reconhecimento e justiça necessário para que a história oculta da população negra possa ser plenamente vista.
Ao final da experiência, a mancha nas mãos do observador torna-se um lembrete físico e inevitável. Palmares nos convida a mergulhar nossas mãos nessa história, reconhecendo que a responsabilidade não se encerra na consciência, mas exige uma postura ativa e o compromisso de jamais esquecer daqueles que carregam em sua pele e sua alma as marcas do racismo. A obra é, assim, um chamado à construção de um quilombo de memória e reparação.
Complementando esse gesto de enfrentamento, “Ubuntu” apresenta-se como uma intervenção artística singular que desafia o espectador a confrontar sua própria responsabilidade diante das injustiças sociais. Materializa-se em um lenço umedecido, excepcionalmente tingido de preto — um objeto cotidiano transformado em catalisador de consciência.
O título evoca a filosofia africana que ressoa “Eu sou porque nós somos”, sublinhando a interconexão fundamental da humanidade. Entretanto, a escolha do objeto – um lenço – é uma ironia cortante: tradicionalmente usado para “limpar” ou “higienizar”, aqui o lenço preto subverte essa função, trazendo consciência de que não podemos “lavar as mãos” diante de questões coletivas.
A proposta da artista é clara: este lenço não oferece absolvição. Ele não permite que o observador se desfaça da mancha da omissão ou da indiferença. Em vez de instrumento de limpeza, torna-se espelho da consciência. Ubuntu é um chamado direto à ação, uma provocação à complacência, lembrando-nos de que nossa humanidade está intrinsecamente ligada à responsabilidade que assumimos — ou deixamos de assumir — pelo bem-estar do outro. A obra nos obriga a reconhecer que, no grande tecido da existência, a inação também é uma forma de intervenção, e que a verdadeira limpeza não se faz com água e sabão, mas com engajamento e solidariedade.
Juntas, as duas peças formam um díptico de diálogo e tensão: Palmares confronta o esquecimento, enquanto Ubuntu convoca à ação. Ambas nos lembram que a reparação não é apenas um gesto simbólico, mas uma prática contínua de reconhecimento, justiça e humanidade compartilhada.
Série
Entre o Papel e a Pele – Pessoas Escravizadas
A série Entre o Papel e a Pele – Pessoas Escravizadas baseia-se em inventários coloniais que registraram pessoas unicamente como propriedade. Os nomes e origens das pessoas escravizadas foram retirados diretamente (segundo a pesquisa emUma história entre rios, 2023) dos documentos de partilha e posse, subvertendo o registro frio da época.
Emergindo dessa superfície, ganham rosto e dignidade indivíduos concretos: Bartholomeu (de origem Muhumbo), sua esposa Maria (de origem Cabinda) e a filha, também Maria, nascida no Brasil, cuja história de separação em 1812 na Fazenda Salto Grande, durante uma partilha de herança, é o ponto de partida documental. O trabalho resgata a humanidade de outras figuras, como Benedicta, Antoninho e Gerônimo, recusando o anonimato imposto.
O título, Entre o Papel e a Pele, condensa a missão da série: evocar a passagem do registro frio (o inventário no papel) ao corpo vívido (a pele), da marca de posse ao afeto e, fundamentalmente, da ausência à dignidade. O carbono, enquanto símbolo de traços enraizados e quase invisíveis do trauma, é aqui rompido para revelar o que se tentou apagar: a essência humana e a resistência.
Ao unir a denúncia do espaço físico da opressão (Fazendas) à restauração do rosto individual (pessoas escravizadas), a obra convida à escuta, à memória e à reflexão sobre as cicatrizes da escravidão que persistem no tecido social e individual do Brasil contemporâneo.
Informação adicional
| Peso | 0,3 kg |
|---|---|
| Dimensões | 29 × 23 × 2 cm |
| Ano | 2025 |
| Técnica | Desenho a partir da Ablação do Papel Carbono |








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