Sejam bem-vindos(as) à exposição "Sobre o Papel da Pele" de Fanny Deltreggia
TEXTO CURATORIAL
Sobre o Papel da Pele: Uma Exposição que Rasga o Véu da História
Nesta exposição, somos convidados a mergulhar no universo sensível e contundente de Fanny Deltreggia, artista visual branca que, ao tornar-se mãe de uma menina negra, viu sua escuta, seu corpo e sua prática artística atravessados por uma nova consciência: a urgência de confrontar o racismo estrutural não como abstração, mas como presença íntima, cotidiana e inegociável.
As obras aqui reunidas não são apenas expressões estéticas — são dispositivos de denúncia, memória e afeto. Elas operam como espelhos e feridas abertas, revelando as camadas invisíveis de uma história que insiste em se esconder sob a superfície da modernidade brasileira.
O núcleo “Entre o Papel e a Pele” é o coração pulsante da mostra. A técnica de ablação sobre papel carbono — onde a imagem emerge pela remoção da tinta — transforma o suporte da cópia em matéria de revelação. As obras dedicadas às fazendas escravocratas de Santa Maria, Galvão, da Barra e Salto Grande, bem como aos rostos de Bartholomeu, Maria e sua filha, são atos de restituição simbólica. A luz que irrompe do carbono é a mesma que atravessa o esquecimento, revelando estruturas, colunas e histórias apagadas dos registros coloniais.
Na série “Escravos” reescreve memórias a partir de inventários que registravam pessoas como propriedade. Ao revelar os rostos de Maria (de origem Cabinda), Bartholomeu (de origem Muhumbo) e sua filha nascida no Brasil, separados em 1812, a artista transforma o registro frio em presença viva. O carbono, símbolo de traços enraizados e quase invisíveis, é rompido para revelar o que se tentou apagar: a humanidade.
A instalação interativa “Palmares” propõe uma experiência cinestésica: ao manusear a caixa, o observador se suja com grafite — metáfora da poeira da história e da chaga do preconceito. Dentro, o retrato de Maria só se revela contra a luz, exigindo do público um gesto ativo de reconhecimento. Já “Ubuntu”, seu díptico, apresenta um lenço umedecido tingido de preto, que ironiza a ideia de limpeza e absolvição. Aqui, a sujeira é consciência, e o toque é responsabilidade.
Em “Muitos”, criada para a Ilha de Acessibilidade, convida o público a tocar centenas de papéis carbono presos a uma corrente. Cada retângulo evoca uma vida apagada, mas irredutível. A textura e o peso da obra materializam a brutalidade do sistema escravista e homenageiam os ancestrais que forjaram o Brasil.
Por meio da fluidez das aquarelas “Expresso” e “Sob o Papel da Pele”, o café é pigmento e denúncia. A mão negra moída pelo moedor de café é uma metáfora devastadora da exploração racial que sustenta a economia. O papiro egípcio, suporte da segunda obra, conecta a memória ancestral africana à precarização contemporânea. A pele, aqui, é documento histórico — superfície onde se inscreve a violência persistente.
Assim, em “Fragmentos” ecoa a denúncia de Abdias do Nascimento sobre o genocídio negro. O rosto despedaçado revela não só a violência física, mas a destruição simbólica da memória e da subjetividade. Já “Despertencimento” aborda o custo psicológico da assimilação: a máscara social imposta pelo racismo estrutural exige a renúncia da própria identidade em troca de uma aceitação condicional.
Já a concretude escultórica de “Al(r)ma Branca”, a tinta branca é arma e dominação. O título joga com “alma” e “arma” para denunciar a violência simbólica da branquitude que tenta apagar a cor negra em nome de uma suposta neutralidade moral.
As intersecções entre as obras costuram a poética da artista: a pesquisa, a história, a desumanidade e racismo, rendem-se a beleza simbólica de “Nós”, autorretrato da artista com sua filha, aqui o afeto é resistência. A obra celebra a união como gesto político, exigindo que a branquitude se comprometa com a proteção e liberdade do corpo negro. “Brasilidade”, por sua vez, entrelaça mãos de diferentes tons de pele, revelando que a diversidade nasce do afeto e sustenta o futuro.
Esta exposição é, portanto, um convite à luz — não à que ofusca, mas à que revela. A luz que atravessa o papel carbono, que toca a pele, que mancha as mãos e que, finalmente, ilumina as histórias que precisamos contar. Entre a maternidade e a militância, entre o afeto e a denúncia, Fanny constrói uma poética que não se furta ao desconforto. Sua branquitude não é negada, mas tensionada — colocada em escuta, em fricção, em transformação.
Regiane Moreira
Os Núcleos da Exposição
Entre o Papel e a Pele – Fazendas
A série Entre o Papel e a Pele – Fazendas é uma profunda meditação sobre os vestígios da escravidão, uma vez que a obra traz à tona a memória histórica da região de Campinas (SP), utilizando como suporte a imagem de antigas fazendas escravocratas.
O projeto tem como ponto de partida a Fazenda Salto Grande, situada em Americana (SP), expandindo-se para outras fazendas significativas da região, como a Fazenda Galvão (Santa Bárbara d’Oeste, SP), Fazenda da Barra (Jaguariúna, SP) e Fazenda Santa Maria (Indaiatuba, SP). Todas essas estruturas integraram um sistema de desumanização sistemática de pessoas negras.
A artista estabelece um diálogo tenso e eloquente ao sobrepor a frieza arquitetônica da Casa-Grande à potência da poesia abolicionista de Castro Alves (1847-1871), o imortal “Poeta dos Escravos”. As frases, arrancadas do Condoreirismo inflamado, agem como uma voz indignada, transformando a paisagem em um monumento de protesto e memória da dor.
A técnica empregada – a ablação do papel carbono – é fundamental para a poética da obra. Neste processo conceitual, a imagem não é edificada pela adição, mas pela remoção do pigmento, revelando as estruturas das fazendas, por meio da luz que irrompe no carbono. Esta metodologia atua como uma metáfora visceral para o esforço de arrancar a verdade da escuridão do esquecimento e do trauma histórico que o Brasil tenta silenciar.
O título, Entre o Papel e a Pele, condensa a dualidade central da obra: o registro material (“Papel”) confrontando a experiência e o corpo (“Pele”). Ao trazer luz para o papel carbono, a artista transforma a técnica em um ato de reparação e denúncia. A série força o observador a questionar se o “destino” de opressão imposto pela escravidão pode ser considerado findo ou se ele persiste, de forma latente e estrutural, na identidade e na desigualdade da nação contemporânea.
Entre o Papel e a Pele - Fazenda Santa Maria
Entre o Papel e a Pele – Fazenda Santa Maria, 2025 Desenho a partir da Ablação do Papel Carbono 13,7 x 10,7 cm
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Entre o Papel e a Pele – Fazenda da Barra, 2025 Desenho a partir da Ablação do Papel Carbono 13,7 x 10,7 cm
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Entre o Papel e a Pele – Fazenda Galvão, 2025 Desenho a partir da Ablação do Papel Carbono 13,7 x 10,7 cm
LEIA MAIS +Entre o Papel e a Pele – Fazenda Salto Grande II
Entre o Papel e a Pele – Fazenda Salto Grande, 2025 Desenho a partir da Ablação do Papel Carbono 28 x 22 cm
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Entre o Papel e a Pele – Fazenda Galvão, 2025 Desenho a partir da Ablação do Papel Carbono 28 x 22 cm
LEIA MAIS +Entre o Papel e a Pele – Fazenda Salto Grande
Fazenda Salto Grande, 2025 Desenho a partir da Ablação do Papel Carbono 60 x 42 cm
LEIA MAIS +Entre o Papel e a Pele – Pessoas Escravizadas
A série Entre o Papel e a Pele – Pessoas Escravizadas baseia-se em inventários coloniais que registraram pessoas unicamente como propriedade. Os nomes e origens das pessoas escravizadas foram retirados diretamente (segundo a pesquisa emUma história entre rios, 2023) dos documentos de partilha e posse, subvertendo o registro frio da época.
Emergindo dessa superfície, ganham rosto e dignidade indivíduos concretos: Bartholomeu (de origem Muhumbo), sua esposa Maria (de origem Cabinda) e a filha, também Maria, nascida no Brasil, cuja história de separação em 1812 na Fazenda Salto Grande, durante uma partilha de herança, é o ponto de partida documental. O trabalho resgata a humanidade de outras figuras, como Benedicta, Antoninho e Gerônimo, recusando o anonimato imposto.
O título, Entre o Papel e a Pele, condensa a missão da série: evocar a passagem do registro frio (o inventário no papel) ao corpo vívido (a pele), da marca de posse ao afeto e, fundamentalmente, da ausência à dignidade. O carbono, enquanto símbolo de traços enraizados e quase invisíveis do trauma, é aqui rompido para revelar o que se tentou apagar: a essência humana e a resistência.
Ao unir a denúncia do espaço físico da opressão (Fazendas) à restauração do rosto individual (pessoas escravizadas), a obra convida à escuta, à memória e à reflexão sobre as cicatrizes da escravidão que persistem no tecido social e individual do Brasil contemporâneo.
Entre o Papel e a Pele - Maria
Entre o Papel e a Pele – Maria, 2025 Desenho a partir da Ablação do Papel Carbono 28 x 22 cm
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Entre o Papel e a Pele – Bartholomeu, 2025 Desenho a partir da Ablação do Papel Carbono 28 x 22 cm
LEIA MAIS +Entre o Papel e a Pele - Maria, mãe de Maria
Entre o Papel e a Pele – Maria, mãe de Maria, 2025 Desenho a partir da Ablação do Papel Carbono 28 x 22 cm
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Entre o Papel e a Pele – Benedicta, 2025 Desenho a partir da Ablação do Papel Carbono 28 x 22 cm
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Entre o Papel e a Pele - Gerônimo, 2025 Desenho a partir da Ablação do Papel Carbono 28,7 x 42 cm
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Entre o Papel e a Pele – Antoninho, 2025 Desenho a partir da Ablação do Papel Carbono 28,7 x 42 cm
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Reparação (Díptico)
Reparação (Díptico), 2025 Objeto Artístico – Obra Interativa Peça 1:Palmares – 35 × 20 × 10 cm Peça 2:Ubuntu –15 × 10 ×10 cm
LEIA MAIS +Ilha de acessibilidade
Reprodução tátil em 3D da Fazenda Salto Grande PLA 24,8 x 5 x 13,4 cm Reprodução tátil em 3D de Entre o Papel ea Pele - Fazenda Salto Grande PLA 20 x 13 cm
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Afeto e Resistência
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